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Nostalgia

Aquela melodia castiça que saía do velhinho rádio de cassetes alegrava a alma do mais sombrio. O reflexo do sol luminoso brilhava através do vidro da frente, o céu sem nuvens em tons de azul alaranjado lá ao fundo imitava o paraíso. Aos poucos os primeiros pontinhos brancos, depois os primeiros telhados de telha velha, depois sim, as primeiras casinhas de paredes caiadas de fresco. À medida que o carro se aproxima o cheiro das tulipas invade suavemente os sentidos. Uma senhora com imensas primaveras e de sorriso vincado acena com as mãos. O som dos pneus gastos a rasgar o alcatrão sinaliza a paragem. Ao abrir a porta uma bola colorida cai-me aos pés e os berros e gargalhadas alegres da infância pedem-me que a lançe de volta. Um cheirinho a carne sabiamente temperada chama de longe. O primeiro abraço caloroso sabe a pouco. Caras amigas devolvem sorrisos sinceros. Palavras de conforto são lançadas ao sabor da magia. Trocam-se mais abraços quentes. Beijos na face são soltos. Os mesmos retratos, a mesma estante, o mesmo sofá, tudo está no sítio tudo está na mesma. O som de uma guitarra rompe alegre pautando o ritmo do tão desejado reencontro. Brinda-se à familia, à amizade, ao amor. Sorrisos de sempre ganham forma, olhares de intimidade são cruzados. A noite fresca junta-se ao convívio caindo devagar. Os grilos reclamam o seu direito a existência com sonoros alegres. São dadas as mãos, corpos dançam a volta da fogueira, beijos apaixonados fazem batota, as horas voam apressadas, a lua delicia-se lá do alto com toda aquela felicidade. Um choro infantil rompe apelando por atenção, um beicinho na face do mais novo diz que a festa já vai longa. Sorrisos culpados são libertados, a guitarra é cuidadosamente silenciada, vêm os abraços, os mais difíceis, fazem-se promessas, os últimos olhares são roubados, a chave roda e o motor ganha vida, a luz dos faróis rasga a escuridão, abre-se um vidro e liberta-se um último adeus. Lágrimas caem. Olha-se para trás e os de sempre vão ficando longe, cada vez mais longe. Um suspiro malandro foge do peito, uma saudade precoce antecipa-se e lá se liberta um desabafo:

– É sempre bom voltar a casa, não é?

– Nem me digas nada, viste como o Andrezinho cresceu?

– E o teu tio Zé, continua um personagem…

– Para o ano voltamos, a minha mãe fez-me prometer.

– Claro amor, adoro a tua família, sinto-me sempre em casa.

– Sim. Eles são incríveis. Já tenho saudades, acreditas?

Olhando para ela, Rafael entendeu tudo, piscou-lhe o olho, sorriu e acelerou estrada fora…


Abel F. Damásio

Um comentário em “Nostalgia

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