Naquele Dia


Naquele dia inesquecível o improvável aconteceu. Vi-te pela primeira vez junto a todos eles. O teu carisma triunfava, eras absolutamente única. A multidão que te rodeava não era, nem podia ser suficiente; o teu brilho natural destacava-se como ouro sobre azul. Aquele sorriso que libertavas causava a admiração das pessoas, não sei se foi uma partida do deslumbramento, mas ao que me pareceu, era como se todos naquele preciso momento se deixassem contagiar pela tua magia. Eu fui um deles. Mas quem era eu, na minha humilde relevância, para almejar tamanha proeza. Sonhar-te era já um privilégio. Lembro-me tão bem do momento em que os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. O brilho meio alegre meio melancólico que habitava os teus olhos intrigou-me. Tremi todo por dentro quando te vi aproximar. Não podia entender porque o fazias, que mistério maldito te faria querer sequer aproximar de uma pessoa como eu. À distância de um beijo o teu olhar era intolerável. Não pude contempla-lo. Senti-me pequeno. Demasiado pequeno. Ainda hoje me pergunto porque me sorriste. Quem era eu para merecer esse gesto da tua parte. Julgo que me disseste algo. Sim, disseste. Mas eu estava demasiado nervoso, perdi essas palavras. Depois apresentaste-te. Chamavas-te Eva. Eras actriz e gostavas de viajar. Estavas longe de casa para perseguir os teus sonhos. Eras um sere absolutamente encantador. Apaixonei-me, ali mesmo. A festa findou. Os convidados dispersaram. E ali estávamos nós, entre risos e confissões, a jogar às novas amizades. A tua hora chegou e deixaste-me o teu número desbotado num guardanapo. Foi uma vitória. Ao regressar a pé para casa, sob o olhar silencioso da lua, sorri sozinho. Sorri de dentro para fora. Eras a mulher dos velhos sonhos. Aquela que esperara toda a vida. No dia seguinte, depois de respirar fundo as vezes que me pareceram suficientes, liguei. Não sei se foi estratégia mas só atendeste muito tempo depois. A melodia da tua voz deitou por terra toda a teoria. Perdi as palavras certas e fiquei despido. Estavas a ganhar-me sem precedentes. Combinámos um café. A esplanada da moda, a beijar o mar, pareceu-te razoável. Quando te vi chegar quis desistir. Ainda não me tinhas visto e ainda sondei a possibilidade. Estava a voltar a sentir-me pequeno. Nada feito. Acenaste-me. Esse fim de tarde foi magistral. Espalhas-te toda a tua inteligência, a tua arte e a tua beleza. Quando te despediste fizeste de propósito, eu sei. Aquele beijo não foi equívoco. Sondaste-me os lábios. Foste surrateira. Adorei que o tenhas sido. Fazer-te feliz tornou-se uma missão. Os meus dias eram teus. A tua satisfação, a tua alegria e o teu sorriso eram um objetivo muito meu.

Sei, hoje em dia, que te fiz feliz. Onde quer que estejas, lembrar-te-ás. Talvez penses em mim, ao adormecer. Talvez..

Sei que nunca compreendeste. Quem poderia compreender tal decisão. Deixar-te foi uma facada em mim mesmo. Afastar-me do teu feitiço. Se um dia pudesse, queria dizer-te o porquê. Mas talvez esse dia nunca chegue..

Até lá…

Voltei a não me sentir pequeno…